O dono da razão
Nando da Costa Lima
Chegou o grande dia, na casa do coroné tinha pra mais de cem jagunços vindos especialmente pra torcer, trouxeram até as “papo-amarelo” pra atirar pra cima na hora da vitória, se o coroné fosse derrotado elas serviriam pra outra coisa. O colégio estava cheio, as primeiras filas foram tomados pelos homens do coroné, o diretor permitiu que eles entrassem armados para manter a ordem. A poesia do coroné foi a última a ser apresentada, o locutor anunciou: “E agora um poeta da terra, o coroné Mangangão vai declamar um poema de sua autoria, ‘Eu sou o dono da razão’ ”. Ele subiu no palanque trajado a rigor, só tinha uma diferença dos demais poetas: eles estava usando dois revólveres, um em cada bolso do paletó. Pegou um revólver e colocou em cima da mesa do júri, o outro ia servir de apoio moral. Pediu silêncio, deu um tiro pra cima e de revólver na mão começou a declamar sua obra prima: “Eu sou o dono da razão / Eu sou mais eu nessa merda, riqueza pra mim é macheza / ser bravo é minha missão, só tomo pinga dobrada / não pago e cuspo no chão / e se alguém achar ruim, atiro no meio da testa / ainda corto as orelhas pra que sirva de lição / não é à toa que meu nome é Coroné Mangangão / atiro com as duas mãos, tanto com ou sem razão / e sempre disse pro povo como dono da razão / o homem pra viver bem tem que ter duas paixões / fé em São Sebastião e um revólver na mão”.
Terminou de declarar e descarregou o revólver, desceu pro seu lugar no auditório e ficou esperando o resultado. Era visível a preocupação do júri, que rabo de foguete. Morrer por causa da poesia ninguém queria, o jeito era empenar pro lado do coroné. E foi num clima de festa que o presidente do júri anunciou o resultado: em 1º lugar o Coronel Mangangão com a melhor poesia, 2º lugar foi ele também com melhor interpretação, 3º lugar outra vez o coronel pelo seu espírito competitivo. O coroné foi premiado quase unanimemente, dos 15 jurados só um voto contra. Segundo a viúva do infeliz, ele votou contra porque tava a fim de morrer, tinha tentado várias vezes sem dar resultado. Desta vez deu. Todo mundo viu que foram os homens do coroné, mas depois do depoimento da viúva dizendo que o defunto era um louco suicida os jagunços foram inocentados e no dia seguinte o jornal da cidade exibia a seguinte manchete “Remosópolis lamenta suicídio cultural que apagou o brilho da sensacional vitória do poeta Mangangão Remoso”.
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